TENDÊNCIAS

Moda é a tendência de consumo da atualidade. É composta de diversos estilos, e nos remete a um mundo único, muitas vezes seguindo um contexto de mudanças. Ela reflete a evolução do comportamento, em uma linguagem não verbal, com um significado diferenciado.

ATITUDE

ATITUDE
Ocorreu um erro neste gadget

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Contos de Luiz Ruffato

Luiz Ruffato (Cataguases, fevereiro de 1961) é um escritor brasileiro. Formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, exerceu jornalismo em São Paulo. Publicou Histórias de Remorsos e Rancores (1998) e Os sobreviventes em 2000, ambos coletâneas de contos. Ganhou os prêmios APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional com o romance Eles Eram Muitos Cavalos, de 2001.


Conto:

Estação das águas
Do Livro “Vista parcial da noite” de Luiz Ruffato
Estropiados, os pés afundam na areia podre do braço-do-rio. O silêncio
de fim-de-tarde de dezembro só o corrói o revolteio da passarinhama em seus
curtos vôos pelas grimpas das árvores e o chuá-chuá das águas embrutecidas
que carreiam tumultuosas galhos e troncos. Ao longe, ê-ê-ê da molecada
jogando pelada, cicio das mulheres recolhendo roupa do quarador, ííin-nhô! de
uma mãe conclamando o filho, vrum de um carro, risos abafados... De coque,
Caburé cafunga, doloridos lanhos nas costas, braços, pernas, rosto, que o pai,
quando zunia a tala-de-couro, nem de desguiar a mão cuidava, acertasse onde,
contrariando a dona Fatinha que, antepondo-se, objetava, “Zé, você ainda
aleija esse menino...” Não que renunciasse a bater, tinha nervos, mas sua
cartilha graduava beliscão, puxão-de-orelha, lambada de vara-de-marmelo na
bunda e, nas gravidades, coça de corrião, pois reconhecia em Isidoro
merecedor, mas nunca chutes, pescoções, murros – tapa na cara então, nem
pensar, “fustiga a vergonha do outro”. Rueiro, o zureta escapava, concubino
da arte, esbranquecendo os cabelos da mãe, enjerizando o pai. Com os
“desencaminhados” do Beco enfrentou os metidos da Vila Teresa de Baixo,
numa guerra de atiradeiras, paus, pedras, porrada – deram parte na polícia, por
alguns tempos baixaram o facho. Negociou o saquinho de bilosca, o finco do
pisse-pisse e o pião, criancices, para adquirir do Gildo, de segunda-mão, um
jogo-de-botão do Vasco – Andrada, Fidélis, Brito, Renê, Eberval, Alcir,
Buglê, Luiz Carlos, Nei, Valfrido, Acelino. Entreteve-se. Mas logo em-bando
invadia a Chácara para jogar bola, brincar de pique e roubar jambo, fruta-pão,
abacate, carambola, jaca, pitanga, manga – impaciente, o Amâncio avisava,
“Da próxima vez...”. Interesseiro, recolhia chumbo e cobre e bronze e garrafas
e papel para o ferro-velho e os caraminguás tornavam fichas de totó e sinuca –
e no botequim do Zé Pinto emaranhava-se no tempo. Tomou pau na quinta
série e, arrependido, jurou-de-pés-juntos aprumar; domingo à tarde, antes da
matinê, exibia para troca, à porta do Cine Edgard, Cheyenne, Gunsmoke,
Comanche, Tex, Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira, Coyote, Zorro, Durango
Kid, que só o faroeste agora lhe cativava. Mas, devasso, levou uma surra do
dono de uma égua, que barrancava nos pastos do Beira-Rio; outra, do pai,
flagrado fazendo bobagem com o Lucas da dona Eucy. “Meu Deus, onde foi
que eu errei?, onde, meu Deus?”, dona Fatinha se desesperava, lastimando
arqueada em alinhavos e arremates, medições e provas, o ta-ta-tá da máquinade-
costura que o embala, que o desperta. O remorso devorava-lhe o fígado,
não pretendia magoá-la jeito-maneira, queria-se bom, comportado, obediente,
para que se orgulhasse dele, como da irmã, e determinava-se, daqui pra
frente!, mas um assobio convocava-o, distraindo-o, um pé-de-vento sob a
janela instilava a curiosidade, “Vamos, Caburé!”, e a promessa murchava,
empurrando-o ao encalço do chamado da rua, livre, selvático, para devolvê-lo
entardecido, cabisbaixo, ao jugo daquele olhar desensofrido, fita-métrica
pendurada do pescoço, exausta carretilha na mão, “Ô meu filho, te procurei
por tudo quanto é canto...”. Derrotado, admitia-se mau, indigno, desprezível,
“Preocupa não, mãe, já comi na casa da dona Marta”, mentia, para rolar pela
noite o estômago vazio, intentando expiar a desgraça que o oprimia, e
martirizava-se recordando o dia em que ela amarrou-lhe um pano embebido
em álcool no pescoço para curar a tosse-de-cachorro e juntos percorreram as
horas, a mãe a moldar panos, ele a imaginar-se herói mascarado do Velho
Oeste; ou as madrugadas em-claro em que velava sua febre de-variação; ou
quando, paciente, arrancava um a um, agulha esterilizada nas brasas do fogãode-
lenha, bichos-de-pé e estrepes de seus pés escalavrados – e então cogitava
freqüentar missa aos domingos e abdicar para sempre de algo que apreciasse
muito, mariola, calango, brovidade, mas longos e enfadonhos eram os sermões
e, esganado, zonzeava só de pensar no jejum... Castigava-se, no entanto:
varava manco a cidade ponta-a-ponta, o quichute estrangulando os dedos
destroncados, suando suas imundícies todas. Mas no intervalo da aula mãoem-
mão surgia uma revistinha-sueca, na saída um atrevido afrontava-o, no
retorno para casa deparava o pai ridiculamente bêbado no botequim do
Gérson, na boca da Ponte Nova – e sucumbia às tentações. Por mor dos
pecados, desejava, do fundo do coração, que aquela “íngua”, como dizia às
vezes nervosa a mãe, morresse, e só de essa idéia relar seu pensamento
antevia-se condenado à eternidade do inferno, em-valendo os ensinamentos do
catecismo da dona Iolanda – “Quinto mandamento: Honrar pai e mãe; sexto
mandamento: Não matarás, sétimo man”. Como, porém, camuflar o ódio que
peçonhava seu sangue? Como ocultar as manchas roxas, ervas-daninhas
semeadas por mãos que indistinguiam bicho e gente? Como respeitá-lo,
descendo trôpego o Beco, chegando carregado da Rua a desoras? Como, se
por-tudo-por-nada estranhava-se com a mãe, envergonhando-a na frente das
freguesas com sua ignorância, sua estupidez, sua valentia? Fugir, talvez, quem
sabe, a solução – e assentou o azul da manhã no fundo do embornal, pão-commanteiga,
biscoito-de-maisena, vidro de água, e galgou discreto as escadas do
Beco, resoluto, a garganta latejando uma antecipada saudade. Sentiria a
ausência da turma – Vicente Cambota, Gilmar, Gildo, Luzimar, Jorge Pelado
–, até a reclamona da Teresinha faria falta, mas necessário escapar, não mais
suportava afligir a mãe com a sempre incapacidade de se desviar do mal e
ouvir suas queixas, “Ah, Isidoro, não sei quem você puxou!”, “Ah, Isidoro,
você ainda me mata de tristeza!”, “Ah, Isidoro, não sei mais o que fazer!”. Já
que redundavam inúteis seus esforços, assumiria de vez a condição de
renegado: nunca mais sentar numa carteira de escola, nunca mais escovar os
dentes, nunca mais tomar banho todo dia e, principalmente, nunca mais
apanhar do pai, sentir o hálito azedo de cachaça e cigarro nunca mais – adeus,
adeus, que já nada o demoveria. E, para cortar caminho, penetrou na Chácara
por um buraco na cerca, evitando topar conhecidos e desviando os lugares que
jamais iria rever, para que futicar sua dor?, não volto, pronto! No campinho,
estendeu-se no chão e, observando distraído os urubus, pontos negros quase
imperceptíveis planando por entre as ralas nuvens de setembro, mastigou os
biscoitos-de-maisena. Depois, contornou o Bairro-Jardim, cruzando ao largo
da Caixa-Dágua, e tomou o desusado atalho para o Paraíso. Na virada do
morro, recolheu-se fatigado sob os eucaliptos, lá embaixo a Industrial, a Ponte
Velha, a torre da Matriz, a Ponte Nova, a Cadeia, o esqueleto do hospital, a
Pedreira, a curva do rio imóvel – e o silêncio cerrou seus olhos. Sobressaltouo
o apito da fábrica, dez para as dez, zumbem pelas ruas enxames de
bicicletas. A essa hora, Zé Pinto cochila ao sol, sob o pé-de-amêndoa, em
frente ao botequim, mosquitos lambem as quitandas destampadas no balcão;
seu Antônio Português esfrega o passeio da Mercearia Brasil, calças
arregaçadas; cismado, Zunga se esgueira, o bloco de anotação do jogo-dobicho
enfiado no cós-da-calça, sob a camisa; Hilda do Zito Pereira refoga a
couve, manhosas meninas de nariz estilando agarradas às pernas; dona
Zulmira carrega um caldeirão-de-comida para o seu Marlindo; debruçada no
muro, dona Olga relata outra noite sem dormir, passos, conversas, latidos,
miados, pios, “Tudo incomoda, Sá-Ana, tudo, estou ficando doida!”; o pai
acorda, muda de roupa, sai atrás do Zé Preguiça e do Presidente para fazerem
nada juntos; a mãe aguarda dona Filhinha cobrir os botões de um vestidodebutante;
a molecada vagabundeia – ah, a cara deles quando souberem! A
mão explorou o embornal e descobriu, abismado, que a água entornara do
vidro, encharcando o pão-com-manteiga. Fora-de-si, levantou-se, xingou,
bicou a quaresmeira, a raiva deliberou que ainda assim marcharia. Em passos
decididos retomou o caminho, mas na primeira curva divisou, direção
contrária, um-alguém, de-branco cabeça-aos-pés, chapéu-de-palha, foice
equilibrando-se no ombro parecendo acenar para ele, lembrou, assombrado,
justo ali armara-se uma tocaia, e, esbugalhados os olhos, eriçados os pêlos,
adentrou de chofre a casa, assustando a mãe, que suspendendo um momento o
pedal da máquina-de-costura ralhou: “Ô meu filho, te procurei por tudo quanto
é canto... Onde você se meteu? Vai comer, vai, antes que esfrie”. Entendeu
como aviso o golpe – e arrumou para vender picolé com o Fábio, do BeiraRio,
que os fabricava redondos para uma fiel freguesia. Serelepe, andou, decá-
para-lá, caixa-de-isopor trançada no peito, “Aê o picolé!”, ajuntando
pratinhas, orgulhoso. Empreendedor, cruzou, confiante, o pontilhão da Ilha.
“Amendoim! Leite! Coco! Limão! Abacate!”, apregoava, distante ainda do
aglomerado de quartos, quando o abalroou o Murrudo, “Racha fora daqui,
moleque!”, “Não estou fazendo nada...”, alegou. O leão-de-chácara,
atenazando-lhe o braço, “Racha fora!”, repetiu. Escutou, então, “Faz isso com
ele não...”, desacreditando, “Pai!...”, em-vinha ele tonto, voz engrolada,
salvador. “Ô Zé, você sabe a lambança se a polícia pega um de-menor aqui...”,
o Murrudo grunhiu, “Eu sei... Deixa... que eu resolvo isso...”, afirmou o Zé
Bundinha, e virando-se para o filho berrou, “Ô bosta!, o que você está fazendo
aqui?”, “Vendendo picolé...”, “E aqui é lugar disso?, heim!?”, repreendeu-o,
sacudindo-o, “Heim!?”, “É que...”. Intimidado, quis correr, atingiu-o um
pontapé na bunda, destampando a caixa, igrejos picolés rolaram na poeira.
Ligeiro ergueu-se e, a-galope, tomou rumo do Beira-Rio, escapulindo da
torrente de gargalhadas que mordendo-lhe os calcanhares ecoava em-dentro da
cabeça. Por uns tempos negacearam, mudos, cada qual ciliciando sua falta,
até, alertado pela anarquia, “Ai meu deus do céu, esse menino ainda acaba
comigo!, Ai que não sei mais o que fazer!”, da mulher jogada no degrau da
entrada da casa, “Em tempo de levar um tiro!”, inteirar-se do distúrbio, o
Isidoro pego roubando manga no quintal do maluco do seu Simão, “Em tempo
de levar um tiro, minha nossa senhora!”, e vociferar, “Tudo tem limite! Eu
rebento esse filho-da-mãe!”. Avançou ao batente da porta da cozinha, tomou
da tala-de-couro e desatinado caçou-o, debaixo das camas e em cima dos
telhados, bradando, “Cadê o desgraçado? Cadê o desgraçado?”, até localizá-lo
encolhido dentro do guarda-roupa da Bibica, de onde arrancou-o, arrastando-o
pelo braço, “É só desgosto, esse capeta!”. Então, passou a espancá-lo, e com
tal violência que, apiedados, os vizinhos suplicaram, “Chega, Zé, Chega, que
você mata esse menino”. A dona Fatinha buscou atracar-se com ele, mas,
impelida contra a parede, esfolou braço e joelho, recolhida à cama a poder de
maracugina. Desceram Zé Pinto e Zé Preguiça e aplicaram-lhe uma gravata, e
as mulheres enfurecidas socaram-lhe a cabeça para que largasse o Isidoro,
“Solta!, Solta!”, que num átimo desapareceu.
Estropiados, os pés afundam na areia podre do braço-do-rio. O silêncio
de fim-de-tarde de dezembro só o corrói o revolteio da passarinhama em seus
curtos vôos pelas grimpas das árvores e o chuá-chuá das águas embrutecidas
que carreiam tumultuosas galhos e troncos. Ao longe, ê-ê-ê da molecada
jogando pelada, cicio das mulheres recolhendo roupa do quarador, ííin-nhô! de
uma mãe conclamando o filho, vrum de um carro, risos abafados... De coque,
Caburé cafunga, doloridos lanhos nas costas, braços, pernas, rosto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário